"Todas as vezes que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25,40)
NA VIDA DE SANTA BARTOLOMEA CAPITANIO
1 – Introdução: A terminologia “Obras de misericórdia”
Com a terminologia “Obras de misericórdia” a tradição cristã indica algumas formas de caridade vividas como ajuda aos irmãos: Caridade “corporal” que se refere ao texto de Mt. 25,36-40 e caridade “espiritual” com um significado evidente de perfeição, sem absolutização de uma obra sobre a outra. As Obras de misericórdia são 14.
Obras Corporais: Obras Espirituais:
1ª) Dar de comer a quem tem fome 1ª) Dar bons conselhos
2ª) Dar de beber a quem tem sede 2ª) Ensinar os ignorantes
3ª) Vestir os nus 3ª) Corrigir os que erram
4ª) Dar pousada aos peregrinos 4ª) Consolar os tristes
5ª) Assistir aos enfermos 5ª) Perdoar as injúrias
6ª) Visitar os presos 6ª) Sofrer com paciência as fraquezas do próximo
7ª) Enterrar os mortos. 7ª) Rezar a Deus pelos vivos e defuntos.
2 – O uso da terminologia “obras de misericórdia” por Bartolomea
O uso explícito da terminologia “obras de misericórdia” é encontrado somente duas vezes nos textos escritos por Bartolomea; ambas citações dos Exercícios Espirituais de dezembro de 1826.
O texto clássico que conhecemos: “Eu, depois de uma boa hora considerando seriamente os vários estados de vida, protesto sinceramente, como se fosse diante de Deus, que o Senhor me chama a um Instituto cujo objetivo seja as obras de misericórdia; e que na hora da morte eu me sentirei contente de tê-lo abraçado. Submeto cada sentimento meu ao meu diretor espiritual, a quem devo obedecer sem nenhum pensamento contrário; digo somente que a isto me sinto inclinada, parecendo-me, no fundo do coração, que esse seja o lugar que Deus me destinou. Mas entre os muitos institutos nisso semelhantes, eu deixo a escolha ao meu diretor..., porém sinto-me feliz em abraçar aquele que o Senhor quiser”.(Exercícios Espirituais, dezembro/1826, Mazza III,14-15)
E outro: “Quando tiver que fazer os meus deveres, não escutarei a voz daquela falsa humildade, que, com o pretexto de não querer ouvir elogios, descuida as obras de misericórdia ou o cumprimento do próprio dever”. (Exercícios Espirituais, dezembro/1826, Mazza III,18-19).
Bartolomea não usará mais a expressão “obras de misericórdia”; mas preferencialmente “caridade para o bem do próximo”; servir, trabalhar, dedicar-se ao bem dos irmãos, cooperar com a salvação, dar o sangue, etc. Descreve muito frequentemente os destinatários das obras de caridade identificando-os nas suas feições em determinadas categorias de pessoas: descreve com precisão o tipo de ação com a qual irá ao encontro das suas necessidades.
3 - O caminho de Bartolomea rumo à opção por “uma vida toda dedicada ao bem do próximo”
O ano de 1826 representa para Bartolomea o ano do discernimento do modo de viver a entrega total de si ao Senhor, feita com o voto de castidade perpétua já em 1824. Tinha assistido com muitas lágrimas, a entrada de Elena Bonardi no noviciado e havia escrito, em junho, à amiga MariannaVertova: “... não me vem nem mesmo um meio pensamento de abandonar o meu querido Instituto... já que, a vida que se leva no mosteiro aqui, me parece um pouco cômoda, ou melhor dizendo, toda voltada somente para si e nada para o próximo... O Senhor não me quer daquela parte”.(Carta à Marianna Vertova, Mazza, I, 97).
Considere-se que em dezembro do mesmo ano, foi fundado em Lovere, um Hospital com o interesse e a generosa contribuição de Caterina Gerosa, no qual Bartolomea colabora de modo ativo.
No final do ano Bartolomea parece estar consciente que deve viver a sua consagração ao Senhor dedicando-se ao próximo e deixando de lado a preocupação com o seu próprio bem estar.
Não é “nova” a sua vontade de dedicar-se ao próximo. Na verdade desde quando deixou o convento das Clarissas, sempre se dedicou aos pobres, às jovens, aos doentes, etc. É novo, porém, o fato que ela queira fazer do serviço ao próximo, um “estado” de vida, uma consagração; isto é, um modo estável de professar a sua opção prioritária por Jesus. E isso, segundo modalidades religiosas, não leigas; com uma Regra, não mais seguindo os seus projetos; mas em obediência; num instituto(congregação), logo com outras irmãs, em comunidade e não sozinha.
É clara para ela, a inclinação natural para as obras de misericórdia, que ela julga ser vocação, chamado de Deus. As obras de misericórdia (ou o instituto com esse objetivo) são destinados a ela por Deus; nem mesmo o temor de dar pretexto à sua instintiva ambição de aparecer deve impedi-la de cumprir a vontade de Deus.
Muitos escritos seus do ano de 1827 e 1828, são iluminantes a esse respeito:
À amiga Lucia Cismondi: “... se Ele deseja alguma coisa de você é um completo abandono nele; Ele quer agir em você como lhe agrada; quer fazer de você instrumento de sua glória; logo, deixe-se guiar por Ele... ficará muito contente se você se doar ao próximo...”. (Mazza I, 265).
Durante os Exercícios Espirituais: “Em silêncio escutei aquilo que me dizia o meu Amor Crucificado. Conheci como é grande o amor de Jesus por mim... Senti o desejo de fazer também eu alguma coisa por um Deus que morre por mim; e a coisa mais agradável que me vem em mente fazer para Jesus, é morrer também eu a mim mesma e à minha vontade por seu amor. Assim que de agora em diante a vontade do meu Deus será o meu alimento, o meu conforto e tudo o que me permitir, aceitarei com boa vontade...” (Exerc. Espirituais-1828)
E a famosa carta à amiga Marianna Vertova:“...muito me agrada dedicar-me em obras de caridade, tanto espirituais como corporais, as quais não podem ser praticadas num mosteiro, a não ser a de pedir ao Senhor pelos pecadores. Se eu estivesse na sua situação não saberia o que decidir. A necessidade da sua cidade é muito grande; especialmente a juventude precisa muito da sua assistência; mesmo que não faça nada, sem a sua presença ficaria privada de um apoio muito necessário, e talvez acabaria em nada também o trabalho realizado até agora, para o seu proveito espiritual. De outro lado, sinto muito deixar aquele bendito retiro, aquela amada solidão que o meu coração tanto deseja para unir-se a Deus... seria muito duro deixa-la... dessa forma eu não sei o que lhe dizer. Procure recomendar-se a Deus de coração, pois Ele certamente lhe fará reconhecer a sua vontade. Não dê muita importância àquilo que lhe parece útil, mas àquilo que visa o bem do próximo. E esteja certa de que não será uma graça menor se o Senhor lhe fizer viver uma vida de monja no século, fazendo-lhe passar o resto de seus dias no mundo como se estivesse num mosteiro... Aquela bendita caridade para com o próximo que Jesus tanto exercitou durante o curso de sua vida, muito me agrada! E praticando-a experimenta-se tanta satisfação que nenhuma monja jamais experimentou. Confesso que se não fosse do agrado de Deus fundar aqui em Lovere o desejado instituto, no qual se pensa unir a vida contemplativa com todos os atos de caridade que se pode fazer ao próximo, eu certamente teria dificuldade de entrar no mosteiro, pois sentiria muito deixar essas oportunidades de ajudar o próximo... Se eu tiver um pouco de amor a Deus poderei ajudar as pessoas... Querida irmã, desejo que o seu coração seja todo de Jesus; um coração que não ame, não procure, não deseje, não suspire, não repouse senão por Jesus...” (08/10/1827-Mazza, I, 197ss).
Para ser útil ao próximo, precisa, portanto, ser uma coisa só com Jesus; ter o coração todo orientado para Jesus. Por isso não existe separação entre o amor(serviço) a Jesus e o amor(serviço) ao próximo. Somente passando através de Jesus é possível servir verdadeiramente o próximo, o irmão(ã). Não é uma caridade qualquer que Bartolomea assume e nos propõe; não é simplesmente um serviço social... é a “bendita caridade que Jesus Cristo tanto praticou durante o curso da sua vida”. Uma caridade que tem Cristo Crucificado por amor, como fonte, modelo, estilo: “Quando o cansaço e o tédio me oprimirem, olharei o meu querido Jesus; e vendo-o me restaurarei. Se me sentir insegura no modo como devo agir para fazer a sua vontade, para ser útil às minhas queridas jovens, farei uma oração ao meu Divino Esposo e Ele me iluminará, me fará discernir o melhor. Trabalhando pelo meu próximo, terei Jesus junto a mim para agir somente por seu amor, para agir com verdadeira caridade, para fazer tudo com grande paz... Somente Jesus esteja no meu coração; somente Ele seja o princípio, o meio e o fim de tudo o que eu fizer, palavra, ação, pensamento e intenção”. (Mazza, III, 663).
Bartolomea faz voto de caridade em 1829, após os Exercícios Espirituais e como fruto dos mesmos. Tem 23 anos. Cartas e textos sucessivos confirmam a emissão do voto com uma fórmula própria, o que a compromete cada vez mais com a caridade: vivência das “obras de misericórdia”.
FRATERNIDADES ESPIRITUAL DAS SANTAS BARTOLOMEA CAPITANIO E VINCENZA GEROSA – GRUPO CATERINA CANOSSI – Macapá-AP