NATIVIDADE DE MARIA: desvendando a história por trás da devoção
Quando olhamos para a imagem de uma criança no berço venerada como a Mãe de Jesus, é natural que surjam questionamentos de fé e de história. Conhecer o verdadeiro itinerário dessa devoção é essencial para compreendermos a profundidade do mistério que celebramos.
Reflexões
07.09.2026 - 08:06:00 | 6 minutos de leitura

NATIVIDADE DE MARIA: desvendando a história por trás da devoção
Ir. Lucy Mariotti
“... de vosso berço, Maria, levantai vossa terna mãozinha e a todos abençoai”(Santa Bartolomea Capitânio, 07/07/1828)
Nossa Senhora Menina é um dos títulos da Virgem Maria, a Mãe de Jesus, venerada em sua natividade e infância, cuja festa litúrgica é celebrada em 8 de setembro. Não temos dados biográficos rigorosamente históricos sobre Maria. Os relatos sobre o seu nascimento encontram-se nos textos chamados apócrifos: o Evangelho da Infância de Maria (surgido por volta do ano 150) e o Protoevangelho de Tiago.
A história desta devoção começou em Jerusalém, ainda no século IV. O Imperador Constantino e sua mãe, Helena, construíram ali um oratório e uma pequena igreja sobre uma gruta, perto da Porta das Ovelhas, onde se localiza a Piscina de Betesda. Segundo o apócrifo de Tiago, esse teria sido o local da casa de Joaquim e Ana. No século V — no tempo do patriarca Juvenal e da imperatriz Eudósia —, foi erguida ali uma igreja com o título de Basílica de Santa Maria. A dedicação do templo ocorreu em 8 de setembro, data que, a partir de então, passou a ser escolhida para celebrar a Natividade de Maria.
Em 21 de novembro de 543, inaugurou-se a "Nova Igreja", construída pelo imperador Justiniano para celebrar a Apresentação de Maria no Templo. Ela recebeu o nome de "Nova" para ser diferenciada daquela mais antiga, edificada sobre o lugar do nascimento da Virgem. Essa basílica foi destruída pelos persas no ano 614 e, mais tarde, reconstruída. Não há registros claros sobre o que aconteceu com ela entre os séculos IX e XII, mas sabe-se que sofreu danos, pois os cruzados construíram outra igreja em 1140 sobre as ruínas bizantinas — a atual Basílica de Sant'Ana. Na cripta dessa basílica, podia-se ver, até pouco tempo atrás, uma imagem de Nossa Senhora Menina levada pelo Cardeal Andrea Carlo Ferrari (arcebispo de Milão de 1894 a 1921).
Entre outros relatos, temos o valioso testemunho de São João Damasceno (675–749), que visitava frequentemente a basílica e lá proferia suas homilias. Em uma dessas ocasiões, num dia 8 de setembro, ele proclamou: “Aqui nasceu a Mãe de Deus, da qual quis nascer o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Segundo ele, era a maior igreja de sua época. Betesda, a piscina na qual os doentes buscavam cura, tornava-se símbolo da salvação trazida ao mundo por Cristo, nascido de Maria. A data de 8 de setembro marca também o início do ano litúrgico em várias Igrejas orientais, pois o nascimento de Maria é o alegre anúncio do nascimento de Jesus. A alegria é a nota tônica dessa festividade, chamada no Oriente de Natividade da Theotokos.
Os registros mais antigos sobre a devoção à Natividade de Maria no Ocidente encontram-se na Itália. O Papa Sérgio I (que governou a Igreja de 687 a 701) começou a celebrar essa festa em Roma, instituindo também as festividades marianas da Natividade, da Purificação e da Assunção. Em 1251, o Papa Inocêncio IV deu maior solenidade à Natividade, estendendo a festa a toda a Igreja e incentivando a realização de procissões. A celebração tornou-se cada vez mais popular, começando na véspera e prolongando-se por oito dias. A primeira igreja dedicada à Natividade de Maria foi construída em Milão no ano de 1007. Anos mais tarde, pelas orações de seu bispo São Carlos Borromeu, a própria Catedral de Milão (o Duomo) foi dedicada a Mariae Nascenti (Natividade de Maria) em 20 de outubro de 1572.
As Irmãs de Caridade das Santas Bartolomea Capitanio e Vincenza Gerosa — carinhosamente conhecidas como Irmãs de Nossa Senhora Menina — cuidam da imagem que deu origem a um novo e vigoroso florescer dessa devoção. Desempenhando sua missão no Hospital Ciceri, em Milão, as irmãs foram presenteadas, em 1842, com uma imagem de Maria Menina em seu berço. Essa peça fora modelada em cera, entre 1720 e 1730, pela Irmã Isabella Chiara Fornari, uma clarissa do mosteiro de Todi, na Itália.
Em 1876, a imagem foi levada para a Casa Geral da congregação, em Milão. Após mais de um século, desgastada e descolorida pelo tempo, a peça original foi substituída por uma réplica. A original passaria a ser exposta apenas uma vez ao ano, na festa de 8 de setembro, e restrita ao interior da casa das irmãs, na sala do noviciado.
No entanto, no dia 9 de setembro de 1884, ocorreu o primeiro grande milagre: a cura da postulante Giulia Macario. Em outubro desse mesmo ano, a imagem ganhou uma pequena capela no primeiro andar da casa. Ali ficava a pequenina imagem em seu berço, entre dois candelabros, ao redor da qual as irmãs passavam e permaneciam em constante oração genuflexa. Nos meses seguintes, por intercessão de Maria Menina, também foram curadas as irmãs Crocifissa Mismetti e Giuseppa Woinovich. Os fatos atraíram moradores da região, que começaram a rezar diante da imagem e a receber inúmeras graças.
A partir do dia 16 de janeiro de 1885, as irmãs notaram algo impressionante: a centenária imagem de cera começou a recuperar, por si só, as suas cores originais. As notícias se espalharam, novas maravilhas aconteceram e foram devidamente autenticadas pela Igreja. Tais acontecimentos inauguraram uma nova era de profunda devoção a Maria Menina. Em 1953, foi construído um santuário no interior da Casa Geral, aberto ao público. O povo, então, passou a chamar carinhosamente as Irmãs de Caridade de “Irmãs de Nossa Senhora Menina” ou “Irmãs de Maria Menina”.
Jesus nos apresentou o modelo de vida vivido por Maria e projetado na figura da Natividade: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3; cf. Lc 9,46-48; Mc 9,36-37). Maria Menina nos ensina a atitude do abandono e da confiança total em Deus — a postura da criança que não teme porque se sabe profundamente amada. Maria disse o seu "Sim" (cf. Lc 1,38.48) com total disponibilidade, sem reservas, com uma humildade e uma alegria que a fizeram cantar o Magnificat. Ela nos ensina a verdadeira infância evangélica. Iluminada pelas Escrituras, a devoção ganha todo o seu sentido: ela nos desafia a confiar Naquele que nos ama infinitamente e a fazer tudo o que Seu Filho nos disser (cf. Jo 2,5).
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