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O Coração que nos humaniza: do símbolo à encarnação do amor

Descubra o verdadeiro significado do Sagrado Coração de Jesus, uma jornada que vai do símbolo bíblico à mística de Santa Bartolomea e ao Magistério da Igreja.

Reflexões

30.06.2026 - 15:16:00 | 6 minutos de leitura

O Coração que nos humaniza: do símbolo à encarnação do amor

O Coração que nos humaniza: do símbolo à encarnação do Amor
Ir. Lucy T. Mariotti

O mês de junho é especialmente dedicado à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Esta devoção não é um vestígio do passado, nem mero sentimentalismo; é, na verdade, o convite mais atual para recuperarmos a nossa interioridade em um mundo marcado pela pressa e pelo consumo. Ao refletirmos sobre o Coração de Jesus, damos atenção ao símbolo, pois “a teologia do objeto e do significado da devoção ao Sagrado Coração deve ser realizada no contexto de uma teologia do símbolo, já que o símbolo faz parte da realidade cristã desde as origens” (K. RAHNER). Então, o que significa, afinal, esse "coração"?

1. O símbolo: da semente à intuição 
O coração atravessou culturas como símbolo de unidade. Na antiguidade, a semente da planta Silphium — que possuía o formato de coração — tornou-se um símbolo comercial e cultural difundido em moedas em Cirene. No Egito antigo, havia a crença de que cada pessoa que morria teria suas ações julgadas em um tribunal presidido por Osiris: o coração seria pesado em uma balança contra uma pena, e o resultado definiria o acesso ao paraíso ou o seu fim. O coração representava as ações da vida de cada pessoa. Para os gregos, o coração (kardía) foi motivo de disputas filosóficas: seria ele ou o cérebro o centro organizador da mente (alma-sopro)? Até que, por volta do ano 200 a.C., o cérebro “venceu” a disputa. Estes símbolos ancestrais já apontavam para uma verdade fundamental: o ser humano precisa de um "centro" que dê sentido a tudo o que vive.

2. O sentido bíblico: o centro da decisão e da verdade
2.1. Coração, na Bíblia, é o lugar onde se escondem as intenções mais profundas, a memória e as escolhas decisivas. Não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o núcleo da personalidade, onde a pessoa se torna "una". Os pensamentos provêm do coração (Is 65,17; Jr 3,16; 7,31). É onde Deus coloca a SABEDORIA (1Rs 10,24; Sl 90,12); é a origem dos projetos e decisões (Ex 35,5; 36,2; 1Sm 14,7; Est 7,5).
2.2. Jesus dirige sua mensagem ao coração das pessoas (Mt 13,19; Lc 8,12.15); ele pede a UNIDADE de coração, palavra e ação (Mt 12,34; Lc 6,45; Mt 7,16-18). As antíteses (Mt 5, 21-48) demonstram que Deus vê o coração, e não somente as obras isoladas. Por isso, em Mt 5,8, a salvação é para os “puros de coração”, porque a pureza pressupõe coerência, verdade e ausência de hipocrisia. Supõe a totalidade da pessoa direcionada ao amor-caridade. Quando os discípulos de Emaús recordam o encontro com o Ressuscitado, dizem: "Não nos ardia o coração quando Ele nos falava pelo caminho?" (Lc 24,32). É o lugar onde a Palavra de Deus se torna fogo que transforma a vida.

3. Santa Bartolomea: a intuição do Amor-Caridade
Santa Bartolomea Capitânio, ao contemplar o Sagrado Coração, aprofunda o mistério de um Deus que se faz humano. Em suas meditações (1830), ela compreende que o Coração do Redentor é, essencialmente, amor-caridade. Para ela, não há separação entre o Cristo do Calvário e o Cristo da Eucaristia; ambos são o prolongamento daquele mesmo Coração que se humilhou por nós (quênosis), daquele Jesus que passou pelo mundo fazendo o bem: a caridade. A contemplação viva do amor de Jesus leva Bartolomea à contemplação do amor da Trindade. Ao bater à porta deste Coração, ela encontra o único descanso capaz de satisfazer o seu próprio ser. E, ao AMOR, ela respondeu com amor.

4. A Palavra do Magistério 
Conforme Papa Leão XIII, o CORAÇÃO “é símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo, que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor". Esta frase, citada na encíclica Haurietis Aquas, de Pio XII, confirma o que Santa Bartolomea intuiu mais de 100 anos antes. Papa Francisco, na encíclica Dilexit Nos, diz que “a devoção ao Coração de Cristo não é o culto a um órgão separado da Pessoa de Jesus. O que contemplamos e adoramos é a Jesus Cristo por inteiro, o Filho de Deus feito homem” (DN, 48); “este Cristo com o seu coração trespassado e ardente é o mesmo Cristo que por amor nasceu em Belém, percorreu a Galileia curando, acariciando, derramando misericórdia, e amou-nos até ao fim, estendendo os braços na cruz. Por fim, é o mesmo que ressuscitou e vive gloriosamente no meio de nós” (DN, 51). 
Embora a devoção tenha assumido formas distintas ao longo da história — com nuances que variam entre as raízes bíblicas, as expressões medievais e as interpretações modernas — a Igreja hoje acolhe toda essa riqueza como um dom do Espírito. Reconhecemos que, em cada tradição, existe uma luz preciosa que nos permite, ainda hoje, redescobrir novos significados e vivenciar essa devoção com uma profundidade cada vez maior (cf. DN 109).

5. Imagens do Evangelho na Mística
A imagem do Coração de Jesus, símbolo supremo do amor de Cristo e fonte da nossa vida espiritual, consolidou-se ao longo dos séculos, ganhando contornos profundos, especialmente na mística monástica, por meio de três imagens do Evangelho: o discípulo amado ouvindo as batidas do coração de Jesus na Última Ceia (Jo 13,23); a figura de Tomé, o incrédulo, tocando o lado aberto, onde as feridas da Paixão (Jo 20,27) mostram o Cristo Ressuscitado com os sinais da história e a imagem de Jesus crucificado com o lado aberto pela lança. Esta é a imagem mais forte porque daquele coração ferido jorram sangue e água (Jo 19,34). A hora da cruz é o momento culminante da sua vida. Jesus mata a sua sede de nos amar e mata a nossa sede de Deus nos dando o Seu Espírito. 

Conclusão
Contemplar o Coração de Jesus é encontrar um "centro unificador" em um mundo fragmentado. É permitir que aquele que nos amou primeiro (1Jo 4,10) nos ensine a amar com a mesma mansidão e humildade (Mt 11,29), transformando nossas relações cotidianas e tornando-nos, como Bartolomea, reflexos da caridade redentora.

Bibliografia
CARTA ENCÍCLICA HAURIETIS AQUAS DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII SOBRE O CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS.
CARTA ENCÍCLICA DILEXIT NOS DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE O AMOR HUMANO E DIVINO DO CORAÇÃO DE JESUS.
HOFFMANN. Coração. In: FRIES, Heinrich (org). Dicionário de Teologia – conceitos fundamentais da Teologia Atual. vol 1. São Paulo: Loyola, 1970, p. 308-313.
LIBÂNIO, João Batista. Sguardo al Cuore di Gesù, in: Testimoni 11/2012, 23.
MARK, Joshua J. Silphium. In: World History Encyclopedia. Disponível em: https://www.worldhistory.org/Silphium/