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O ROSÁRIO DA VIRGEM MARIA

Frequentemente compreendido apenas como uma devoção tradicional à Virgem Maria, o Rosário revela-se, à luz da teologia cristã e dos ensinamentos papais, uma oração profundamente cristocêntrica e evangélica. No artigo "O Rosário da Virgem Maria", a Ir. Etel Mª Costa nos conduz por uma rica imersão nos mistérios da vida de Cristo, destacando não apenas a estrutura e os ciclos meditativos da oração, mas também a sua marcante trajetória histórica. Do seu surgimento na Igreja até a forte expressão de fé enraizada na cultura brasileira — onde ecoou nas preces dos simples, nas senzalas e nas tradicionais congadas —, o texto convida o leitor a redescobrir o Rosário como uma verdadeira escola de contemplação, paz e seguimento fiel ao Senhor.

Reflexões

22.10.2026 - 10:01:00 | 8 minutos de leitura

O ROSÁRIO DA VIRGEM MARIA

O ROSÁRIO DA VIRGEM MARIA
Ir. Etel Mª Costa
O Rosário, mesmo tendo sido consagrado, ao longo da história, como uma devoção à Virgem Maria, é considerado na teologia cristã católica, uma oração profundamente cristocêntrica, pois é composto de conteúdos e temas que conduzem o fiel à contemplação de Cristo com Maria. São Paulo VI na Exortação apostólica (MC) Marialis Cultus (42-55) destaca o caráter evangélico do Rosário e a sua orientação cristológica.
Recordando todos os quinze mistérios do Rosário, constata-se que são todos fundamentados em trechos do evangelho, correspondentes às principais passagens da vida de Jesus. Com Maria, através da oração do Rosário, o fiel entra em comunhão com “uma série de mistérios da salvação, sabiamente dividido em três ciclos que exprimem: o gozo dos tempos messiânicos; a dor salvífica de Cristo; à glória do divino Ressuscitado que inunda a Igreja” (cf. MC 49) e conduz à reflexão e prática de vida.
A oração do Pai Nosso que está na base da oração cristã, é por excelência uma oração evangélica ensinada pelo próprio Jesus Cristo (cf. Mt 6,9-13). A sucessão em forma de ladainha das 5 dezenas de Ave Marias que foi composta da saudação do anjo à Virgem Maria (cf. Lc 1,28) e do louvor de Isabel (cf. Lc 1,42), ao que segue a súplica eclesial Santa Maria. A doxologia Glória ao Pai, encerra a oração com a glorificação a Deus, uno e Trino, do qual, pelo qual e para o qual, são todas as coisas (cf. Rm 36).
Os quinze mistérios do Rosário são todos baseados e inspirados em uma citação bíblica, sempre em torno de fatos ligados aos mistérios da salvação operada pelo Filho de Deus encarnado. 
Nos mistérios Gozosos são referidas as seguintes passagens do Evangelho: o 1º Mistério é sobre a Anunciação do Anjo a Maria (cf. Lc 1,26-39); o 2º Mistério relata a visita de Maria à sua prima Isabel (cf. Lc 1,39-56); o 3º Mistério contempla o nascimento de Jesus na gruta de Belém (cf. Lc 2, 1-15); o 4º mistério relata a apresentação do Menino Jesus no templo, onde Maria encontra o velho Simeão (cf. Lc 2,22-33); o 5º Mistério relata o episódio de Jesus perdido e encontrado no templo entre os doutores (cf. Lc 2,42-52).
Nos mistérios Dolorosos são referidas as seguintes passagens do Evangelho: o 1º Mistério contempla a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mc 14,32-43); o 2º Mistério contempla Jesus açoitado por ordem de Pilatos (cf. Jo 18,38-40;19,1); o 3º Mistério contempla Jesus coroado de espinhos (cf. Mt 27,27-32); o 4º Mistério contempla Jesus carregando a cruz até o Monte Calvário (cf. Lc 23,20-32); o 5º Mistério contempla a crucificação e a morte de Jesus na cruz (cf. Lc 23,33-47).
Nos mistérios da Glória são referidas as seguintes passagens do Evangelho: o 1º Mistério contempla a Ressurreição de Jesus Cristo, Nosso Senhor (cf. Mc 16,1-8); o 2º Mistério contempla a Ascenção de Jesus Cristo ao céu (cf. At 1,4-11); o 3º Mistério contempla a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos (cf. At 2,1-14); o 4º Mistério contempla a Assunção de Nossa Senhora ao céu (cf. 1Cor 15, 20-23.53-55); o 5º Mistério contempla a coroação de Nossa Senhora como Rainha do céu e da terra (cf. Ap 12,1-6).
A Carta Apostólica do Papa São João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, publicada em 16 de outubro de 2002, sobre o Santo Rosário, destaca cinco ideias principais: 
1. O Rosário contempla Cristo, pois, embora seja uma devoção mariana, o centro do Rosário é Jesus Cristo, que é o centro da fé Cristã. Maria ensina o cristão a contemplar o rosto de seu Filho e a entrar nos mistérios de sua vida. 
2. Maria é modelo de contemplação. Maria é apresentada como aquela que “conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (cf. Lc 2,19.51). 
3. Os Mistérios Luminosos. São João Paulo II propõe cinco novos mistérios: os Mistérios da Luz, que devem contemplar: 1. O Batismo de Jesus no Jordão (cf. Mt 3,13-16); 2. As Bodas de Caná (cf. Jo 2,1-12); 3. O Anúncio do Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15); 4. A Transfiguração (cf. Lc 9,28-36); 5. A Instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-29). Estes mistérios completam a contemplação dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. 
4. O Rosário é uma oração de paz e de família. O Papa recomenda a oração do Rosário pelas famílias, pela paz no mundo e pelas necessidades da Igreja. O Rosário pode ajudar a família a recuperar momentos de oração em comum. 
5. O Rosário conduz à conformidade com Cristo. A finalidade última não é simplesmente repetir orações, mas conformar-se cada vez mais a Jesus. Ao contemplar Cristo com Maria, o fiel é levado a imitá-lo e a viver o Evangelho. 
De acordo com a carta do papa João Paulo II, a dinâmica do Rosário deve assumir três atitudes: Recordar, contemplar e imitar. O fiel recorda os acontecimentos da vida de Jesus, contempla esses mistérios com Maria e procura transformar essa contemplação em vivência cristã. Em síntese, a reflexão do papa ensina que o Rosário é uma escola de contemplação de Cristo com Maria, pela qual o cristão aprofunda a fé, cresce na vida espiritual e se configura cada vez mais ao Senhor.
A devoção a Maria sob o título de “Nossa Senhora do Rosário” é antiga na Igreja católica. Conforme a tradição , no início do século XIII, para combater uma heresia na França, o papa Inocêncio III encarregou o Cônego Domingos de Gusmão, de combater tal heresia e conquistar o povo para a Igreja. Domingos de Gusmão, com toda a sua fé e incessantes orações, implorando o auxílio de Deus, teve, segundo o relato, uma visão da Virgem Maria que lhe ensinou um método de oração, garantindo-lhe maravilhosos resultados. Assim surgiu a devoção ao Rosário, composto sob a orientação da Rainha do Céu. Essa devoção cresceu e foi amplamente divulgada pela ordem dos Dominicanos, fundada por Domingos de Gusmão. 
“A consagração definitiva do rosário foi por ocasião da famosa batalha Naval de Lepanto, vencida pelos cristãos a 7 de outubro de 1571. Enquanto os cristãos lutavam contra os turcos , o povo em Roma rezava a oração ensinada pela Virgem Maria. A fim de imortalizar o triunfo das forças cristãs, Pio V instituiu a festa de Nossa Senhora das Vitórias, cujo nome foi mudado para Nossa Senhora do Rosário pelo seu sucessor, o papa Gregório XIII, que reconheceu no rosário a arma da vitória. No século XIX todo o mês de outubro foi dedicado pela Igreja católica a esta piedosa oração. No Brasil, a devoção ao Santo rosário foi trazida pelos missionários e logo se espalhou. Principalmente os pretos escravos que nele encontraram as orações mais simples e populares: o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Eles usavam o rosário pendurado ao pescoço e depois dos trabalhos do dia reuniam-se em torno de um ‘tirador de reza’ e ouvia-se, então no interior das senzalas, o sussurrar das preces dos cativos. O terço era toda a liturgia dos pobres, dos que não sabiam ler nem escrever, mas que elevavam sua alma na contemplação dos mistérios da vida de Maria e de seu Divino Filho” . 

Pelo que se tem de informação, os africanos já conheciam esta devoção desde a África, onde, provavelmente os missionários e colonizadores portugueses divulgaram o culto da Virgem do Rosário. Em várias cidades do Brasil, especialmente em Minas Gerais, nas vilas do ouro e dos diamantes, os negros associaram-se em confrarias e multiplicaram-se inúmeras Irmandades do Rosário, os “reisados” e as “congadas” do Rosário. A invocação a Nossa Senhora do Rosário é muito difundida no Brasil. Segundo o Anuário Católico do Brasil, existem centenas de paróquias a ela dedicadas. “Não somente os pretos eram devotos da Virgem do Rosário, mas também os pardos e os brancos que construíram várias igrejas em seu louvor, como as catedrais de Itacoatiara, Paranaguá, Santos, Vitória da Conquista”, entre outras. Um exemplo significativo é o templo de Nossa Senhora do Rosário do Embu, construído entre os séculos XVII e XVIII e que abriga inestimáveis obras de arquitetura e escultura, restauradas pelo Patrimônio Histórico Nacional. 
A imagem de Nossa Senhora do Rosário é apresentada geralmente no estilo barroco e assim, suas vestimentas possuem planejamento ondulantes com ornamentos dourados .
Que Nossa Senhora do Rosário interceda junto ao seu Filho, a proteção a todo o nosso povo que tanto confia e é fiel à oração do Rosário ou do Terço. Que através desta oração, profundamente bíblica e cristológica, possamos crescer em santidade e progredir no seguimento fiel a Jesus, o Filho de Deus nosso Salvador, encarnado no ventre de Maria. 

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